Hipátia de Alexandria

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Definição

Joshua J. Mark
por , traduzido por Eric Azevedo
publicado em 02 Setembro 2009
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Texto original em inglês: Hypatia of Alexandria

Rachel Weisz as Hypatia of Alexandria (by Focus Features, Newmarket Films, Telecinco Cinema, Copyright, fair use)
Rachel Weisz como Hipátia de Alexandria
Focus Features, Newmarket Films, Telecinco Cinema (Copyright, fair use)

Hipátia de Alexandria (c. 370 EC - março de 415 EC) foi uma filósofa e matemática, nascida em Alexandria, Egito, possivelmente em 370 EC (embora alguns estudiosos posicionem seu nascimento em c. 350 EC). Ela era filha do matemático Téon, o último professor da Universidade de Alexandria, que a instruiu em matemática, astronomia e na filosofia da época que, nos tempos modernos, seria considerada ciência.

Nada se sabe sobre sua mãe e há poucas informações sobre sua vida. Como escreve o estudioso Michael A. B. Deakin:

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Os relatos mais detalhados que temos da vida de Hipátia são os registros de sua morte. Aprendemos mais sobre sua morte com as fontes primárias do que sobre qualquer outro aspecto de sua vida. (49)

Ela foi assassinada em 415 EC por uma multidão de cristãos que a atacou nas ruas de Alexandria. As fontes primárias, mesmo os escritores cristãos que eram hostis a ela e alegavam que ela era uma bruxa, são geralmente solidárias em registrar sua morte como uma tragédia. Esses relatos frequentemente retratam Hipátia como uma mulher que era amplamente conhecida por sua generosidade, amor pelo aprendizado e experiência no ensino das áreas do neoplatonismo, da matemática, das ciências e da filosofia.

Desenvolvimento de Alexandria

Alexandria, Egito foi fundada no local da antiga cidade portuária de Racótis por Alexandre, o Grande, em c. 331 AEC. Diz-se que o próprio Alexandre elaborou a planta da cidade e depois delegou sua construção a seu comandante Cleómenes, enquanto o próprio Alexandre prosseguiu com suas campanhas militares. Cleómenes ergueu a cidade original, mas ela foi desenvolvida ao seu auge por um dos generais de Alexandre, Ptolomeu I (r. 323-282 AEC), que governou o Egito após a morte de Alexandre.

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Ptolomeu I fundou a Biblioteca de Alexandria, o museu, e o Templo de Serápis (o Serafeu) e transformou a cidade em um centro cultural que rivalizava Atenas. O estudioso Lionel Casson comenta:

Nos tempos antigos, a palavra museu normalmente se referia a um estabelecimento religioso, um templo para a adoração das musas; a criação de Ptolomeu era um templo figurativo para as musas, um lugar para cultivar as artes que elas simbolizavam. Era uma versão antiga de um grupo de reflexão: os membros, compostos por escritores, poetas, cientistas e estudiosos, eram nomeados pelos Ptolomeus de forma vitalícia e gozavam de um belo salário, isenção de impostos (um privilégio significativo no reino ptolomaico), hospedagem gratuita e alimentação. Não havia perigo de esgotamento de recursos, já que a instituição possuía uma verba concedida por Ptolomeu I quando ele a criou. (33)

Alexandria atraiu as melhores mentes da época em ciências, matemática, filosofia e muitas outras disciplinas. O grande matemático Arquimedes (v. 287-212 AEC) estudou lá e possivelmente também ministrou cursos. O filósofo e geógrafo Eratóstenes (v. c. 276-194 AEC) lecionou lá, e foi em Alexandria que ele calculou a circunferência da Terra. O matemático Euclides (v. c. 300 AEC) também lecionou em Alexandria, e o brilhante engenheiro e matemático Herão (também conhecido como Heron, 10-70 EC) viveu e trabalhou lá.

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A cidade prosperou sob os dois primeiros governantes da Dinastia Ptolomaica, mas declinou constantemente sob os outros até ser tomada por Roma após a Batalha de Áccio em 31 AEC. Quando o imperador romano Constantino, o Grande (v. 272-337 AEC) tornou o Cristianismo a religião do Estado, os Cristãos de Alexandria – antes perseguidos – agora se sentiam capacitados a contra-atacar seus adversários pagãos. Na época de Hipátia, diferenças religiosas e rivalidades dividiam regularmente a cidade e explodiam em violência.

Hypatia of Alexandria Experimenting
Hipatia de Alexandria Experimentando
Focus Features (Copyright, fair use)

HIPÁTIA LEVOU A VIDA DE UMA ACADÊMICA RESPEITADA NA UNIVERSIDADE DE ALEXANDRIA.

Hipátia e Sua Cidade

Em uma cidade que estava se tornando cada vez mais religiosamente diversificada (e sempre o foi, culturalmente), Hipátia era uma amiga próxima do prefeito pagão Orestes e foi acusada por Cirilo, o Arcebispo Cristão de Alexandria, por impedir Orestes de aceitar a ‘verdadeira fé’. Ela também era vista como um ‘entrave’ por aqueles que teriam aceitado a ‘verdade’ do Cristianismo não fosse por seu carisma, charme e excelência em tornar compreensível conceitos matemáticos e filosóficos difíceis para seus alunos; conceitos que contradiziam os ensinamentos da igreja relativamente nova.

Para todos os efeitos, Hipátia foi tida como uma mulher extraordinária não só em seu tempo, mas em toda a história, e uma popular oradora pública. Michael Deakin cita o antigo historiador Damáscio, que descreveu suas palestras públicas:

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Vestindo o tribon [o manto de um estudioso, e, portanto, essencialmente um item do vestuário masculino], a dama fez aparições ao redor do centro da cidade, explanando em público àqueles dispostos a ouvir sobre Platão, Aristóteles ou algum outro filósofo... Havia uma grande multidão ao redor das portas [de sua casa], uma confusão de homens e cavalos, de pessoas indo e vindo e outros passando o tempo, esperando por Hipátia, a filósofa, que se dirigia a eles a partir de sua casa. (58)

Seu pai, Téon, recusou-se a impor à sua filha o papel tradicional atribuído às mulheres e a criou como se houvesse criado um filho na tradição grega; transmitindo-lhe sua própria experiência. A estudiosa Wendy Slatkin escreve:

As mulheres gregas de todas as classes ocupavam-se com o mesmo tipo de trabalho, principalmente centrado nas necessidades domésticas da família. As mulheres cuidavam de crianças pequenas, tratavam dos doentes e preparavam comida. (34)

Hipátia, por outro lado, levou a vida de uma acadêmica respeitada na universidade de Alexandria; uma posição a que antes apenas homens tinham direito. Deakin ressalta que ela superou seu respeitado pai, conforme evidenciado por testemunhos antigos de seu brilhantismo. Ela nunca se casou e permaneceu celibatária durante toda a sua vida, dedicando-se ao aprendizado e ao ensino. Os antigos escritores concordam que ela era uma mulher de enorme poder intelectual, até mesmo para escritores cristãos, como João de Niquiu, que eram hostis a ela. Deakin comenta:

A amplitude de seus interesses é impressionante. Dentro da matemática, ela escreveu ou lecionou sobre astronomia (incluindo seus aspectos observacionais - o astrolábio), geometria (e geometria avançada para seu tempo) e álgebra (novamente, para seu tempo, álgebra difícil), e fez um avanço na técnica computacional - tudo isso além de seu envolvimento em filosofia religiosa e sua aspiração por um bom estilo de escrita. Seus escritos foram, no melhor que podemos julgar, uma consequência de seu ensino nas áreas técnicas da matemática. De fato, ela continuava um programa iniciado por seu pai: um esforço consciente de preservar e elucidar as grandes obras matemáticas da herança alexandrina (112).

Esta herança era tão impressionante que Alexandria rivalizava com Atenas como uma joia de aprendizado e cultura. A partir do reinado de Ptolomeu I, Alexandria cresceu para simbolizar os melhores aspectos da vida urbana civilizada. Mesmo em relativo declínio, a cidade ainda era uma maravilha do mundo mediterrâneo. Escritores antigos como Estrabão (63 AEC - 21 EC) descrevem a cidade como “magnífica”, e a universidade era estimada em tão alta consideração que os estudiosos de todo o mundo continuavam a se reunir lá, apesar das rivalidades e violência religiosas. Diz-se que a grande Biblioteca de Alexandria tinha 500.000 livros em suas prateleiras no edifício principal e mais em um anexo adjacente. Como professora na universidade, Hipátia teria acesso diário a esses recursos e parece nítido que ela se aproveitou disso.

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Intolerância Religiosa e Morte

Alexandria ainda era uma grande sede de aprendizado nos primeiros dias do Cristianismo, mas, à medida que a fé crescia em adeptos e em poder, tornou-se cada vez mais dividida por disputas entre facções religiosas. Não é de forma alguma um exagero afirmar que Alexandria foi destruída como um centro de cultura e aprendizado pela intolerância religiosa, e Hipátia passou a simbolizar esta tragédia já que sua morte foi citada como o fim do mundo clássico.

O arcebispo Cirilo regularmente se frustrava com a popularidade de Hipátia e com sua amizade com o prefeito Orestes. O cronista cristão João de Niquiu explica a situação do ponto de vista de Cirilo:

E naqueles dias apareceu em Alexandria uma filósofa, uma pagã chamada Hipátia, dedicada em todos os momentos à magia, a astrolábios e a instrumentos de música, e ela enganou muitas pessoas através de suas artimanhas satânicas. E o governador da cidade [Orestes] honrava-a excessivamente, já que ela o havia seduzido através de sua magia. E ele deixou de frequentar a igreja como havia sido seu costume. (Deakin, 148)

As tensões aumentaram quando Orestes puniu publicamente um homem chamado Hierax, um cristão zeloso e um dos homens de Cirilo, por incitação à violência. Hierax havia entrado em uma sinagoga para espionar a comunidade judaica para Cirilo, a fim de encontrar qualquer evidência de planos de judeus contra cristãos. Quando os judeus o notaram, eles reclamaram com Orestes e Heirax foi retido e punido. Cirilo, enfurecido, encorajou a comunidade cristã a atacar os judeus. Os judeus foram mortos, e os sobreviventes expulsos da cidade, ao passo que suas posses foram apropriadas pelos cristãos e suas sinagogas convertidas em igrejas. Na fúria religiosa inspirada por suas “vitórias” sobre os judeus, a multidão então foi à procura de Hipátia.

O Assassinato de Hipátia

Em 415 EC, a caminho de casa após dar suas aulas diárias na universidade, Hipátia foi atacada por esta multidão, composta em grande parte por monges cristãos, e arrastada de sua carroça pela rua para uma igreja, onde foi despida, espancada até a morte e queimada. O estudioso Mangasar M. Mangasarian descreve a cena conforme registrada por historiadores antigos:

Na manhã seguinte, quando Hipátia apareceu em sua carruagem em frente à sua residência, de repente quinhentos homens, todos vestidos de preto e encapuzados, quinhentos monges semifamintos vindos das areias do deserto egípcio – quinhentos monges, soldados da cruz – desceram a rua como um furacão negro, invadiram sua carroça, e, puxando-a para fora de seu assento, arrastaram-na pelos cabelos para dentro de uma – como devo dizer? – uma igreja! Alguns historiadores insinuam que os monges pediram que ela beijasse a cruz, para que se tornasse cristã e se juntasse ao convento, caso ela desejasse que sua vida fosse poupada. De qualquer forma, esses monges, liderados por Pedro, o Leitor – o braço direito de São Cirilo –, vergonhosamente a despiram, e ali, perto do altar e da cruz, rasparam a carne trêmula de seus ossos, usando conchas de ostra. Seu sangue quente respingou sobre o piso de mármore da igreja. O altar e a cruz também estavam salpicados devido à violência com que seus membros foram arrancados, enquanto as mãos dos monges apresentavam um aspecto revoltante demais para descrever. O corpo mutilado, sobre o qual os assassinos festejavam seu ódio fanático, foi então arremessado para as chamas. (6)

Após a morte de Hipátia, a Universidade de Alexandria foi saqueada e queimada por ordem de Cirilo, templos pagãos foram demolidos, e houve um êxodo em massa de intelectuais e artistas de Alexandria. Cirilo foi depois reconhecido como santo pela igreja por seus esforços em suprimir o paganismo e lutar pela verdadeira fé. A morte de Hipátia tem sido reconhecida há muito tempo como uma marca divisora de águas na história, separando a era clássica do paganismo da era do cristianismo.

O longa-metragem Ágora, de 2009, que conta a história da vida e da morte de Hipátia, retrata com precisão o tumulto religioso de Alexandria ocorrido por volta de 415 EC, ao mesmo tempo em que toma liberdade poética em relação a eventos na vida da filósofa (como os detalhes de sua morte). O filme provocou controvérsia de alguns segmentos da comunidade cristã após seu lançamento, que se opuseram à representação dos primeiros cristãos como inimigos fanáticos do aprendizado e da cultura. A história é clara, no entanto, que Alexandria começou a declinar à medida que o cristianismo ascendia no poder, e a morte de Hipátia de Alexandria passou a incorporar tudo o que foi perdido para a civilização no tumulto da intolerância religiosa e da destruição que ela gerou.

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Sobre o tradutor

Eric Azevedo
With a Bachelor's degree in Economics at University of Sao Paulo (USP, Brazil), Eric has experience on translating articles and publications, besides having a particular interest in all things related to History, Philosophy and Arts.

Sobre o autor

Joshua J. Mark
Escritor freelancer e ex-professor de Filosofia no Marist College, em Nova York. Joshua J. Mark viveu na Grécia e na Alemanha, viajou pelo Egito. Lecionou História, Redação, Literatura e Filosofia em várias universidades.

Cite este trabalho

Estilo APA

Mark, J. J. (2009, Setembro 02). Hipátia de Alexandria [Hypatia of Alexandria]. (E. Azevedo, Tradutor). World History Encyclopedia. Recuperado de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-434/hipatia-de-alexandria/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Hipátia de Alexandria." Traduzido por Eric Azevedo. World History Encyclopedia. Última modificação Setembro 02, 2009. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-434/hipatia-de-alexandria/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Hipátia de Alexandria." Traduzido por Eric Azevedo. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 02 Set 2009. Web. 27 Nov 2021.