A Batalha das Termópilas

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Definição

Mark Cartwright
por , traduzido por Rogério Cardoso
publicado em 16 Abril 2013
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Texto original em inglês: Battle of Thermopylae

Battle of Thermopylae 480 BCE (by Dept. of History, US Military Academy, CC BY-SA)
A Batalha das Termópilas, 480 a.C.
Dept. of History, US Military Academy (CC BY-SA)

As Termópilas são um passo de montanha próximo ao mar, no norte da Grécia, que foi o lugar de várias batalhas na Antiguidade, sendo a mais famosa aquela entre persas e gregos em agosto de 480 a.C. Embora estivessem em números bem inferiores, os gregos seguraram a passagem estreita por três dias, tendo o rei Leônidas empreendido uma defesa desesperada com uma pequena força de espartanos e outros hoplitas. Ulteriormente, os persas tomaram o controle do passo, mas a derrota heroica de Leônidas assumiria proporções legendárias por gerações posteriores de gregos, e, dentro de um ano, a invasão persa seria repelida nas Batalhas de Salamina e de Plateia.

Contexto: as Guerras Persas

Nos primeiros anos do século V a.C., o Império Aquemênida Persa, sob o governo de Dario I (r. 522-486 a.C.), já estava se expandindo em direção à Europa Continental e já havia subjugado a Trácia e a Macedônia. Os próximos alvos do rei Dario eram Atenas e o resto da Grécia. Não está claro por que a Grécia era cobiçada pela Pérsia. Riqueza e recursos parecem ser um motivo improvável; outras sugestões mais plausíveis incluem a necessidade de aumentar o prestígio do rei em casa ou de reprimir, de uma vez por todas, um conjunto de estados rebeldes potencialmente problemáticos na fronteira ocidental do império.

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Quaisquer que tenham sido os motivos exatos, em 491 a.C., Dario enviou emissários para exigirem a submissão dos gregos à autoridade persa. Os gregos enviaram uma reposta bem clara ao executar os emissários, e Atenas e Esparta prometeram formar uma aliança pela defesa da Grécia. A resposta de Dario a esse ultraje diplomático foi o lançamento de uma força naval de 600 navios e 25.000 homens para atacar as Cíclades e a Eubeia, deixando os persas a apenas um passo de distância do resto da Grécia. Em 490 a.C., as forças gregas lideradas por Atenas enfrentaram os persas na Batalha de Maratona e derrotaram os invasores. A batalha adquiriria um status mítico entre os gregos, mas, na realidade, ela foi meramente o prelúdio de uma longa guerra em que várias outras batalhas seriam os atos principais. A Pérsia, sendo o maior império do mundo, era vastamente superior em homens e recursos, que seriam então plenamente utilizados num ataque de larga escala.

Greco-Persian Wars
Guerras Greco-Persas
Kelly Macquire (CC BY-NC-SA)

Em 486 a.C., Xerxes I (r. 486-465 a.C.) tornou-se rei após a morte de Dario, e enormes preparativos para a invasão foram feitos. Depósitos de equipamentos e suprimentos foram instalados, um canal foi cavado na Calcídica, e pontes de barcos foram construídas através do Helesponto para facilitar o movimento das tropas. A Grécia estava prestes a encarar a sua maior ameaça de todos os tempos, de modo que até o oráculo em Delfos ominosamente recomendasse aos atenienses que "voassem ao fim do mundo".

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O Passo das Termópilas

Quando notícias da força invasora chegaram à Grécia, a reação grega inicial foi enviar uma força de 10.000 hoplitas para guardar posição no Vale do Tempe, perto do Monte Olimpo, mas eles se retiraram quando o enorme tamanho do exército invasor foi revelado. Assim, depois de muita discussão e acordos entre as cidades-estados gregas, desconfiadas dos motivos umas das outras, um exército conjunto de 6 a 7.000 homens foi enviado para defender o passo das Termópilas, através do qual os persas deveriam passar para entrar na Grécia Continental. As forças gregas incluíam 300 espartanos e seus hilotas, com 2.120 árcades, 1.000 lócrios, 1.000 fócios, 700 téspios, 400 coríntios, 400 tebanos, 200 homens de Flios e 80 micênicos.

as termópilas foram uma excelente escolha para defesa, com montanhas que descem até o mar, deixando apenas uma passagem estreita ao longo da costa.

O tamanho relativamente pequeno da força de defesa tem sido explicado como uma relutância de algumas cidades-estados gregas em empregar tropas tão ao norte, e/ou por motivos religiosos, já que era o período dos jogos sagrados em Olímpia e do mais importante festival religioso espartano, a Carneia, e nenhuma luta era permitida durante esses eventos. De fato, por essa mesma razão, os espartanos haviam chegado muito tarde à anterior Batalha de Maratona. Dessa forma, os espartanos, amplamente creditados como os melhores combatentes da Grécia, e Esparta como a única pólis com um exército profissional, contribuíram com apenas uma pequena força ofensiva de 300 hoplitas (de uma força estimada em 8.000 disponíveis) para a força defensiva grega, tendo sido esses poucos escolhidos entre os homens com herdeiros masculinos.

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Além das forças terrestres, as póleis gregas enviaram uma frota de navios de guerra trirremes que guardou posição na costa do Artemísio (ou Artemisium), na costa setentrional da Eubeia, a 40 milhas náuticas das Termópilas. Os gregos juntariam mais de 300 trirremes, de sorte que o seu principal propósito fosse talvez o de impedir que a frota persa navegasse rumo ao sul pela costa interna da Lócrida e da Beócia.

Greek Hoplite
Hoplita Grego
Johnny Shumate (Public Domain)

O passo das Termópilas, localizado a 150 quilômetros ao norte de Atenas, foi uma excelente escolha para defesa, com montanhas íngremes descendo até o mar, deixando apenas uma estreita área alagadiça ao longo da costa. O passo também havia sido fortificado pelos fócios locais, que construíram uma muralha defensiva que descia desde o chamado Portão Médio até o mar. A muralha estava num estado de ruína, mas os espartanos fizeram os melhores reparos que podiam nessas circunstâncias. Foi aí então que, numa abertura de 15 metros de largura, com um elevado penhasco protegendo o seu flanco esquerdo e o mar à sua direita, os gregos decidiram fazer resistência ao exército invasor. Tendo em algum lugar na região 80.000 tropas ao seu dispor, o rei persa, que liderou a invasão em pessoa, primeiro aguardou quatro dias na expectativa de que os gregos fugissem em pânico. Quando os gregos guardaram sua posição, Xerxes outra vez enviou emissários para oferecer aos defensores uma última chance de se renderem sem derramamento de sangue, caso os gregos apenas depusessem as suas armas. A resposta confiante de Leônidas à exigência de Xerxes foi "μολὼν λαβέ" (molōn labé) ou "vem e as toma", e assim a batalha começou.

Hoplitas vs Arqueiros

Os dois exércitos adversários eram essencialmente representativos de duas abordagens da guerra clássica - o método de guerra persa favorecia o combate a distância usando arqueiros, seguidos por um ataque de cavalaria, enquanto os gregos favoreciam hoplitas fortemente blindados, dispostos numa formação densamente compactada chamada falange, em que cada homem carregava um pesado escudo redondo de bronze e lutava a curta distância usando lanças e espadas. A infantaria persa carregava um escudo mais leve e mais fraco (muitas vezes com formato de lua crescente) e era armada com uma longa adaga ou machado, uma lança curta e um arco composto. As forças persas também incluíam os Imortais, uma força de elite de 10.000 homens que eram provavelmente mais bem protegidos com armaduras e armados com lanças. A cavalaria persa era armada como os soldados a pé, com um arco e dois dardos adicionais para lançar e impulsionar. A cavalaria, geralmente operando nos flancos da batalha principal, era usada para varrer a infantaria adversária posta em desordem depois de ter sido submetida a repetidas saraivadas dos arqueiros. Embora os persas tenham aproveitado a vantagem em combates anteriores durante a recente revolta jônica, o terreno nas Termópilas seria mais adequado ao método de guerra grego.

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Persian Archers
Arqueiros Persas
mshamma (CC BY)

Embora a tática persa de disparar rapidamente uma vasta quantidade de flechas sobre o inimigo deva ter sido uma vista incrível, a leveza das flechas indicava que elas eram largamente inefetivas contra os hoplitas trajados com armaduras de bronze. De fato, a indiferença espartana é epitomizada por Dieneces, que, ao ser informado de que as flechas persas seriam tão densas a ponto de escurecerem o sol, respondeu que nesse caso os espartanos teriam o prazer de lutar nas sombras. A curta distância, as espadas mais longas, os escudos mais pesados, a melhor armadura e a rígida disciplina na formação da falange indicavam que os hoplitas gregos teriam todas as vantagens, e, nos estreitos confins do terreno, os persas teriam dificuldade de fazer os seus números vastamente superiores valerem.

A Batalha

No primeiro dia, Xerxes enviou as suas tropas medas e cassitas, e, não tendo conseguido elas desobstruir a passagem, os Imortais de elite entraram na batalha, mas, na brutal luta a curta distância, os gregos se mantiveram firmes. A tática grega de simular uma retirada desorganizada e depois voltar-se contra o inimigo numa formação de falange também funcionou bem, diminuindo a ameaça das flechas persas. Talvez os hoplitas tenham surpreendido os persas com a sua mobilidade disciplinada, um benefício de ser um exército profissionalmente treinado.

O segundo dia seguiu o padrão do primeiro, e as forças gregas ainda dominavam o passo. Contudo, um inescrupuloso traidor estava prestes a fazer a balança pender a favor dos invasores. Efialtes, filho de Euridemo, um pastor local oriundo de Tráquis, buscando uma recompensa de Xerxes, informou os persas de uma rota alternativa — o caminho de Anopeia —, que lhes permitiria desviar-se da maioria das forças inimigas e atacar o seu flanco meridional. Leônidas havia estacionado o contingente de tropas fócias para defender esse ponto vital, mas eles, vendo a si próprios como o alvo primário desse novo avanço, se retiraram para uma posição defensiva mais alta quando os Imortais atacaram. Isso favoreceu os persas, já que eles poderiam então prosseguir desimpedidos ao longo do caminho pelas montanhas e chegar por trás da força grega principal. Sendo a sua posição nesse momento aparentemente irremediável e antes de a sua retirada ser cortada completamente, a maior parte das forças gregas foi ordenada por Leônidas a se retirar.

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Leonidas
Leônidas
Marie-Lan Nguyen (CC BY-SA)

A Resistência Final

O rei espartano, no terceiro dia de batalha, reuniu a sua pequena força - os sobreviventes dos originais 300 espartanos, 700 téspios e 400 tebanos - e armou uma retaguarda para defender o passo até o último homem, na esperança de atrasar o avanço dos persas, para permitir que o resto da força grega se retirasse ou também possivelmente para aguardar o socorro de uma força grega maior. De manhã cedo, os hoplitas mais uma vez enfrentaram o inimigo, mas, dessa vez, Xerxes podia atacar tanto pela frente quanto por trás (e de fato planejou fazer assim), mas, na hora, os Imortais atrás dos gregos chegaram atrasados. Leônidas moveu suas tropas até a parte mais larga do passo para utilizar todos os seus homens de uma só vez, e, no embate seguinte, o rei espartano foi morto. Os seus companheiros em seguida lutaram ferozmente para recuperar o corpo do rei caído. Enquanto isso, os Imortais então entraram na peleja por trás dos gregos, que recuaram para um alto monte atrás da muralha fócia. Talvez nesse ponto o contingente tebano já houvesse se rendido (embora isso seja debatido entre os estudiosos). Os hoplitas restantes, já cercados e sem o seu inspirador rei, foram submetidos a uma saraivada de flechas persas até que não sobrasse mais nenhum homem. Após a batalha, Xerxes ordenou que a cabeça de Leônidas fosse posta numa estaca e exibida no campo de batalha. Segundo afirma Heródoto no seu relato sobre a batalha no livro VII das Histórias, o Oráculo de Delfos havia se provado correto quando ela proclamou que, ou Esparta, ou um de seus reis haveria de cair.

Enquanto isso no Artemísio, os persas estavam batalhando contra os elementos em vez dos gregos, haja vista que eles perderam 400 trirremes numa tempestade na costa da Magnésia e mais trirremes numa segunda tempestade na costa da Eubeia. Quando as duas frotas finalmente se encontraram, os gregos lutaram no fim do dia e assim limitaram a duração de cada escaramuça, o que reduziu a vantagem numérica tida pelos persas. O resultado da batalha, todavia, foi inconclusivo e, com a notícia da derrota de Leônidas, a frota se retirou até Salamina.

O Resultado

A Batalha das Termópilas e, particularmente, o papel dos espartanos nela em pouco tempo adquiriram um status mítico entre os gregos. Homens livres, em respeito às suas próprias leis, haviam se sacrificado com o intuito de defender o seu modo de vida contra uma agressão estrangeira. Conforme declara o epitáfio de Simônides no mesmo lugar em que eles caíram: "Ó estrangeiro, comunica aos espartanos que aqui jazemos obedientes às palavras deles".

Uma gloriosa derrota talvez, mas o fato rememorava que o caminho estava então livre para que Xerxes avançasse em direção à Grécia Continental. Os gregos, no entanto, seguiam longe de estarem acabados, e, embora muitos estados estivessem se entregando aos persas, embora a própria Atenas tenha sido saqueada, um exército grego liderado pelo irmão de Leônidas, Cleômbroto, começou a construir uma muralha defensiva perto de Corinto. O inverno, contudo, interrompeu a campanha por terra, e, em Salamina, a frota grega atraiu os persas para águas rasas e obteve uma vitória retumbante. Xerxes voltou para casa, ao seu palácio em Susã, e deixou o talentoso general Mardônio a cargo da invasão. Após uma série de negociações políticas, ficou claro que os persas não obteriam a vitória por meio da diplomacia, de modo que os dois exércitos se encontrassem em Plateia, em agosto de 479 a.C. Os gregos, pondo em campo o maior exército de hoplitas já visto, venceram a batalha e finalmente puseram fim às ambições de Xerxes na Grécia.

Uma interessante nota de rodapé: a importante posição estratégica das Termópilas fez com que elas fossem outra vez um palco de batalha em 279 a.C., quando os gregos encararam gauleses invasores, em 191 a.C., quando um exército romano derrotou Antíoco III, e até mesmo recentemente, em 1941, quando forças aliadas da Nova Zelândia confrontaram as da Alemanha.

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Sobre o tradutor

Rogério Cardoso
Rogério Cardoso nasceu em Manaus, Brasil, onde inicialmente obteve um grau em Letras Portuguesas, e mais tarde se mudou para São Paulo, onde obteve um grau de mestre em Filologia Portuguesa. Ele é um entusiasta da História.

Sobre o autor

Mark Cartwright
Mark é um historiador que vive na Itália. Seus interesses incluem cerâmica, arquitetura, mitologia e a descoberta das ideias que todas as civilizações partilham entre si. Tem Mestrado em Filosofia Política e é o Diretor de Publicação na Enciclopédia da História Mundial.

Cite este trabalho

Estilo APA

Cartwright, M. (2013, Abril 16). A Batalha das Termópilas [Battle of Thermopylae]. (R. Cardoso, Tradutor). World History Encyclopedia. Recuperado de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-335/a-batalha-das-termopilas/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "A Batalha das Termópilas." Traduzido por Rogério Cardoso. World History Encyclopedia. Última modificação Abril 16, 2013. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-335/a-batalha-das-termopilas/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "A Batalha das Termópilas." Traduzido por Rogério Cardoso. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 16 Abr 2013. Web. 09 Dez 2021.